Gabarito disponível
Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.
Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.
Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.
Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a "coisa" vem. Fico assim à mercê do tempo. E, entre um verdadeiro escrever e outro, podem-se passar anos.
Lembro-me agora com saudade da dor de escrever livros.
(LISPECTOR, Clarice. In: A descoberta do mundo, Rio de Janeiro:Rocco, 1999. p. 134.)
Que fragmento de Escrever, de Ferreira dos Santos (texto I), mantém um dialogismo com Escrever, de Clarice Lispector (texto II)?
Resolução comentada
A alternativa B dialoga com o tema do escrever como expressão do íntimo, presente no texto de Clarice.
Em "desabafar [...] o que lhe vai na pena da alma", Ferreira dos Santos aproxima escrever de externar sentimentos e da alma, tema central em Clarice ("salva a alma presa", "sentir até o último fim o sentimento"). Essa retomada temática caracteriza o dialogismo entre os dois textos.
Análise das alternativas
A) Errada: trata de dispensar prólogos e paisagem, sem ligação com o texto II. C) Errada: aborda a atenção do leitor com parágrafos. D) Errada: critica rimas bobinhas. E) Errada: fala sobre o título e o diagramador. Nenhuma retoma a ideia de escrever ligada à alma e ao sentimento.
Referência: Dialogismo e intertextualidade.
Resolução comentada do VaiConcursos.