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Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
A partir do emprego da expressão “o tal” no fragmento “Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel.” (2º§), pode-se inferir que a avaliação do narrador sobre o tenente é de:
Resolução comentada
"O tal" expressa tom depreciativo do narrador em relação ao tenente.
No contexto, "tal" funciona como um determinativo de tom irônico ou desdenhoso, que indica um sujeito já conhecido e meio duvidoso ("o famoso tenente"). A avaliação do narrador é de depreciação.
Análise das alternativas
B, C, E: prestígio, honrarias e reconhecimento indicariam valorização, o oposto do tom irônico. D: dissimulação refere-se a ocultar intenções, e não é a atitude do narrador na avaliação do tenente.
Referência: Fernando Sabino, O tenente mágico – interpretação de texto
Resolução comentada do VaiConcursos.