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Texto-base:
TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1 Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
2 com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
3 que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
4 Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5 saudáveis.
6 Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
7 tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
8 Este seria o momento ideal para eu vestir a toga¹ do moralista vulgar, lançando
9 raios homéricos sobre a nefasta² tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10 iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
11 Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
12 smartphone ao velho e bom cochilo.
13 Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
14 eles: quando espreitamos³ as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15 espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
16 O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
17 sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
18 Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
19 do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20 Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
21 dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
22 coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
23 começam a despejar perfume pela goela.
24 Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25 último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
26 interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor⁴ que Thomas
27 de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio⁵". Como se chegou
28 até aqui?
29 Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30 um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
31 Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
32 sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
33 problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
34 – uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35 agirmos em conformidade.
36 Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
37 parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
38 problematiza, critica, propõe.
39 No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40 smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
41 sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
42 Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
43 só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
TEXTO II
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
1 Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou
2 em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
3 – Bem, não me espere para o jantar...
4 – Onde você está?
5 – Sabe a nossa pesca submarina?
6 – O que houve?
7 – Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha
8 direção.
9 – Você ainda está embaixo d’água?!
10 – Estou.
11 – E o seu arpão?
12 – O tubarão engoliu!
13 – Ligue para a Guarda Costeira!
14 São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
15 e agora nem as piscinas estão seguras.
16 Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas
17 empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro
18 pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está
19 falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos
20 celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando
21 mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
22 Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam
23 o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que
24 ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu
25 funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia
26 quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que
27 alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que
28 mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da
29 noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem
30 está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó
31 pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na
32 direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós
33 solitárias quando inventou o assovio?
34 O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso
35 em volta. Eles agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128>. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
TEXTO III
O celular que escraviza
Eles roubam nosso tempo, atrapalham os relacionamentos e podem até causar acidentes de trânsito. Quando é a hora de desligar?
1 Estamos viciados. Em qualquer lugar, a qualquer momento do dia, não
2 conseguimos deixar de lado o objeto de nossa dependência. Dormimos ao lado dele,
3 acordamos com ele, o levamos para o banheiro e para o café da manhã – e, se, por
4 enorme azar, o esquecemos em casa ao sair, voltamos correndo. Somos incapazes de
5 ficar mais de um minuto sem olhar para ele. É através dele que nos conectamos com o
6 mundo, com os amigos, com o trabalho. Sabemos da vida de todos e informamos a todos
7 o que acontece por meio dele. Os neurocientistas dizem que ele nos fornece pequenos
8 estímulos prazerosos dos quais nos tornamos dependentes. Somos 21 milhões – número
9 de brasileiros com mais de 15 anos que têm smartphones, os celulares que fazem muito
10 mais que falar. Com eles, trocamos e-mails, usamos programas de GPS e navegamos
11 em redes sociais. O tempo todo. Observe a seu redor. Em qualquer situação, as pessoas
12 param, olham a tela do celular, dedilham uma mensagem. Enquanto conversam.
13 Enquanto namoram. Enquanto participam de uma reunião. E – pior de tudo – até mesmo
14 enquanto dirigem.
15 “É uma dependência difícil de eliminar”, diz o psiquiatra americano David
16 Greenfield, diretor do Centro para Tratamento de Vício em Internet e Tecnologia, na
17 cidade de West Hartford. “Nosso cérebro se acostuma a receber essas novidades
18 constantemente e passa a procurar por elas a todo instante.” O pai de todos os vícios,
19 claro, é o Facebook, maior rede social do mundo, onde publicamos notícias sobre nós
20 mesmos como se alimentássemos um grande jornal coletivo sobre a vida cotidiana.
21 Depois dele, novas redes foram criadas e apertaram o nó da dependência. Programas
22 de troca de fotos como o Instagram conectam milhões de pessoas por meio das imagens
23 feitas pelas câmeras cada vez mais potentes dos celulares. Os aplicativos de trocas de
24 mensagem, como o Whatsapp, promovem bate-papos escritos que se assemelham a
25 uma conversa na mesa do bar. O final dessa história pode ser dramático. Interagir com
26 o aparelho – e com centenas de amigos escondidos sob a tela de cristal – tornou-se para
27 alguns uma compulsão tão violenta que pode colocar a própria vida em risco.
28 Parece exagero? Pense na história da garota americana Taylor Sauer, de 18
29 anos. Em janeiro, Taylor dirigia numa rodovia interestadual que liga os Estados de Utah
30 e Idaho quando bateu a 130 quilômetros por hora na traseira de um caminhão. Taylor
31 trocava mensagens com um amigo sobre um time de futebol americano. Uma a cada 90
32 segundos. Seu último post foi: “Não posso discutir isso agora. Dirigir e escrever no
33 Facebook não é seguro! Haha”. Se não estivesse teclando, provavelmente Taylor teria
34 avistado o veículo à frente, que andava a meros 25 quilômetros por hora. O caso terrível
35 não é uma aberração estatística. A cada ano, 3 mil americanos morrem por causa da
36 distração no celular, de acordo com a agência federal National Transportation Safety
37 Board.
38 No Brasil, não é diferente – pelo menos é a impressão dos profissionais que
39 trabalham na área. “Minha experiência sugere que essa é a quarta maior causa de
40 acidentes, só atrás do excesso de velocidade, uso de álcool e drogas e cansaço”, diz
41 Dirceu Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. (...) O cérebro só
42 faz bem uma coisa ou outra. (...) Dirigir falando ao telefone duplica o risco de um
43 acidente.
44 (...)
45 A sensação de estar por fora é consequência da hiperconectividade, um conceito
46 elaborado por dois pesquisadores canadenses, Anabel Quan-Haase e Barry Wellman.
47 Eles criaram uma teoria para explicar como vive o dono de um celular moderno. Ele pode
48 se comunicar a partir de qualquer lugar a qualquer instante. Não há fronteiras entre ele,
49 seus amigos e o restante do mundo – com exceção (maldição!) de locais em que o sinal
50 é fraco ou (pesadelo!) não chega. Um dos efeitos colaterais da hiperconectividade é ser
51 altamente viciante. Daí a desconfiança de especialistas de que motoristas que não
52 conseguem largar o celular enquanto dirigem são, na verdade, dependentes.
53 Dispositivos eletrônicos como os celulares geram a sensação de prazer para o cérebro
54 porque ele se sente recompensado a cada novidade recebida. Uma mensagem é um
55 pacotinho de prazer. A descarga de uma substância estimulante para nossos neurônios,
56 a dopamina, encarrega-se de gerar a sensação agradável. O Instituto de Informação e
57 Tecnologia de Helsinque, na Finlândia, fez um estudo para analisar quanto tempo do dia
58 gastamos com o hábito de verificar atualizações em busca desse barato cerebral. De
59 acesso em acesso, somamos duas horas e 40 minutos. É o mesmo tempo gasto nos
60 Estados Unidos com televisão e dez vezes o que se gasta com leitura. (...)
Reportagem de Rafael Barifouse e Isabella Ayub, Revista Época,15/06/2012. Disponível em <http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/o-celular-que-escraviza.html>. Último acesso em 03 de outubro de 2017.
TEXTO IV

Infográfico retirado da reportagem “O celular que escraviza”, da Revista Época,15/06/2012. Disponível em <http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/o-celular-que-escraviza.html>. Último acesso, 03/10/2017.
TEXTO V

Disponível em <http://professoraelaine81e82.blogspot.com.br/2016/09/charges-sobre-internet-atividade-iii.html>. Acesso em 23 de agosto de 2017.
Em entrevista ao jornal O Globo (04/09/2017), o brasileiro Gil Giardelli, um Web Ativista, membro do XMedia da Universidade de Stanford, disse: “há uma pesquisa global sobre varejo, e o Brasil sempre esteve entre a primeira e a terceira colocação de bom atendimento e sorriso. Nos últimos anos, caímos para as últimas posições. Em virtude da hiperconexão, estamos deixando de sorrir, de atender bem. Em média, uma pessoa com smartphone tem 120 nanotédios por dia”. Ele também explica o que são esses nanotédios: “É quando, por exemplo, a aula não está boa, você saca o celular. O jantar com a família não está bom, eu saco o celular. Toda vez que você pega o seu celular ou tablet para olhar uma mídia social, você demora de 30 a 40 segundos para entender essa transição. E depois que você fica (na mídia social), demora também para se conectar ao que estava fazendo antes. Isso tem criado uma ansiedade grande nas pessoas”. O que Giardelli explica confirma todas as informações abaixo, EXCETO,
TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1 Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
2 com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
3 que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
4 Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5 saudáveis.
6 Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
7 tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
8 Este seria o momento ideal para eu vestir a toga¹ do moralista vulgar, lançando
9 raios homéricos sobre a nefasta² tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10 iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
11 Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
12 smartphone ao velho e bom cochilo.
13 Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
14 eles: quando espreitamos³ as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15 espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
16 O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
17 sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
18 Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
19 do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20 Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
21 dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
22 coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
23 começam a despejar perfume pela goela.
24 Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25 último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
26 interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor⁴ que Thomas
27 de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio⁵". Como se chegou
28 até aqui?
29 Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30 um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
31 Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
32 sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
33 problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
34 – uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35 agirmos em conformidade.
36 Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
37 parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
38 problematiza, critica, propõe.
39 No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40 smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
41 sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
42 Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
43 só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
TEXTO II
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
1 Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou
2 em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
3 – Bem, não me espere para o jantar...
4 – Onde você está?
5 – Sabe a nossa pesca submarina?
6 – O que houve?
7 – Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha
8 direção.
9 – Você ainda está embaixo d’água?!
10 – Estou.
11 – E o seu arpão?
12 – O tubarão engoliu!
13 – Ligue para a Guarda Costeira!
14 São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
15 e agora nem as piscinas estão seguras.
16 Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas
17 empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro
18 pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está
19 falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos
20 celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando
21 mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
22 Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam
23 o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que
24 ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu
25 funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia
26 quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que
27 alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que
28 mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da
29 noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem
30 está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó
31 pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na
32 direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós
33 solitárias quando inventou o assovio?
34 O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso
35 em volta. Eles agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128>. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
TEXTO III
O celular que escraviza
Eles roubam nosso tempo, atrapalham os relacionamentos e podem até causar acidentes de trânsito. Quando é a hora de desligar?
1 Estamos viciados. Em qualquer lugar, a qualquer momento do dia, não
2 conseguimos deixar de lado o objeto de nossa dependência. Dormimos ao lado dele,
3 acordamos com ele, o levamos para o banheiro e para o café da manhã – e, se, por
4 enorme azar, o esquecemos em casa ao sair, voltamos correndo. Somos incapazes de
5 ficar mais de um minuto sem olhar para ele. É através dele que nos conectamos com o
6 mundo, com os amigos, com o trabalho. Sabemos da vida de todos e informamos a todos
7 o que acontece por meio dele. Os neurocientistas dizem que ele nos fornece pequenos
8 estímulos prazerosos dos quais nos tornamos dependentes. Somos 21 milhões – número
9 de brasileiros com mais de 15 anos que têm smartphones, os celulares que fazem muito
10 mais que falar. Com eles, trocamos e-mails, usamos programas de GPS e navegamos
11 em redes sociais. O tempo todo. Observe a seu redor. Em qualquer situação, as pessoas
12 param, olham a tela do celular, dedilham uma mensagem. Enquanto conversam.
13 Enquanto namoram. Enquanto participam de uma reunião. E – pior de tudo – até mesmo
14 enquanto dirigem.
15 “É uma dependência difícil de eliminar”, diz o psiquiatra americano David
16 Greenfield, diretor do Centro para Tratamento de Vício em Internet e Tecnologia, na
17 cidade de West Hartford. “Nosso cérebro se acostuma a receber essas novidades
18 constantemente e passa a procurar por elas a todo instante.” O pai de todos os vícios,
19 claro, é o Facebook, maior rede social do mundo, onde publicamos notícias sobre nós
20 mesmos como se alimentássemos um grande jornal coletivo sobre a vida cotidiana.
21 Depois dele, novas redes foram criadas e apertaram o nó da dependência. Programas
22 de troca de fotos como o Instagram conectam milhões de pessoas por meio das imagens
23 feitas pelas câmeras cada vez mais potentes dos celulares. Os aplicativos de trocas de
24 mensagem, como o Whatsapp, promovem bate-papos escritos que se assemelham a
25 uma conversa na mesa do bar. O final dessa história pode ser dramático. Interagir com
26 o aparelho – e com centenas de amigos escondidos sob a tela de cristal – tornou-se para
27 alguns uma compulsão tão violenta que pode colocar a própria vida em risco.
28 Parece exagero? Pense na história da garota americana Taylor Sauer, de 18
29 anos. Em janeiro, Taylor dirigia numa rodovia interestadual que liga os Estados de Utah
30 e Idaho quando bateu a 130 quilômetros por hora na traseira de um caminhão. Taylor
31 trocava mensagens com um amigo sobre um time de futebol americano. Uma a cada 90
32 segundos. Seu último post foi: “Não posso discutir isso agora. Dirigir e escrever no
33 Facebook não é seguro! Haha”. Se não estivesse teclando, provavelmente Taylor teria
34 avistado o veículo à frente, que andava a meros 25 quilômetros por hora. O caso terrível
35 não é uma aberração estatística. A cada ano, 3 mil americanos morrem por causa da
36 distração no celular, de acordo com a agência federal National Transportation Safety
37 Board.
38 No Brasil, não é diferente – pelo menos é a impressão dos profissionais que
39 trabalham na área. “Minha experiência sugere que essa é a quarta maior causa de
40 acidentes, só atrás do excesso de velocidade, uso de álcool e drogas e cansaço”, diz
41 Dirceu Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. (...) O cérebro só
42 faz bem uma coisa ou outra. (...) Dirigir falando ao telefone duplica o risco de um
43 acidente.
44 (...)
45 A sensação de estar por fora é consequência da hiperconectividade, um conceito
46 elaborado por dois pesquisadores canadenses, Anabel Quan-Haase e Barry Wellman.
47 Eles criaram uma teoria para explicar como vive o dono de um celular moderno. Ele pode
48 se comunicar a partir de qualquer lugar a qualquer instante. Não há fronteiras entre ele,
49 seus amigos e o restante do mundo – com exceção (maldição!) de locais em que o sinal
50 é fraco ou (pesadelo!) não chega. Um dos efeitos colaterais da hiperconectividade é ser
51 altamente viciante. Daí a desconfiança de especialistas de que motoristas que não
52 conseguem largar o celular enquanto dirigem são, na verdade, dependentes.
53 Dispositivos eletrônicos como os celulares geram a sensação de prazer para o cérebro
54 porque ele se sente recompensado a cada novidade recebida. Uma mensagem é um
55 pacotinho de prazer. A descarga de uma substância estimulante para nossos neurônios,
56 a dopamina, encarrega-se de gerar a sensação agradável. O Instituto de Informação e
57 Tecnologia de Helsinque, na Finlândia, fez um estudo para analisar quanto tempo do dia
58 gastamos com o hábito de verificar atualizações em busca desse barato cerebral. De
59 acesso em acesso, somamos duas horas e 40 minutos. É o mesmo tempo gasto nos
60 Estados Unidos com televisão e dez vezes o que se gasta com leitura. (...)
Reportagem de Rafael Barifouse e Isabella Ayub, Revista Época,15/06/2012. Disponível em <http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/o-celular-que-escraviza.html>. Último acesso em 03 de outubro de 2017.
TEXTO IV
Infográfico retirado da reportagem “O celular que escraviza”, da Revista Época,15/06/2012. Disponível em <http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/o-celular-que-escraviza.html>. Último acesso, 03/10/2017.
TEXTO V
Disponível em <http://professoraelaine81e82.blogspot.com.br/2016/09/charges-sobre-internet-atividade-iii.html>. Acesso em 23 de agosto de 2017.
Em entrevista ao jornal O Globo (04/09/2017), o brasileiro Gil Giardelli, um Web Ativista, membro do XMedia da Universidade de Stanford, disse: “há uma pesquisa global sobre varejo, e o Brasil sempre esteve entre a primeira e a terceira colocação de bom atendimento e sorriso. Nos últimos anos, caímos para as últimas posições. Em virtude da hiperconexão, estamos deixando de sorrir, de atender bem. Em média, uma pessoa com smartphone tem 120 nanotédios por dia”. Ele também explica o que são esses nanotédios: “É quando, por exemplo, a aula não está boa, você saca o celular. O jantar com a família não está bom, eu saco o celular. Toda vez que você pega o seu celular ou tablet para olhar uma mídia social, você demora de 30 a 40 segundos para entender essa transição. E depois que você fica (na mídia social), demora também para se conectar ao que estava fazendo antes. Isso tem criado uma ansiedade grande nas pessoas”. O que Giardelli explica confirma todas as informações abaixo, EXCETO,