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Colégio Militar do Rio de Janeiro 2017

Questão 4 — Língua Portuguesa: Efeitos de Sentido — Recursos Gráficos

Língua Portuguesa Efeitos de Sentido — Recursos Gráficos

Colégio Militar do Rio de Janeiro 2017 Fundamental

Colégio Militar do Rio de Janeiro · Admissão ao 6º ano do Ensino Fundamental

Gabarito disponível

Texto-base:
Em 2017 completam-se trinta anos da morte de um dos mais importantes escritores brasileiros: Carlos Drummond de Andrade. Ele deixou uma extensa obra, entre poesia e textos em prosa, como a crônica a seguir, publicada em 1974. Desde então, muitas coisas mudaram em relação ao assunto desta prova, como a proibição da caça de animais silvestres e do uso de animais em espetáculos de circo. Mas outras, que ainda são praticadas, nos levam a pensar que ainda temos muito que aprender. Queremos convidá-lo a refletir sobre o tema desta prova: a comida saudável, que respeite o meio ambiente e o bem-estar dos animais. Com a palavra, o grande poeta.

TEXTO I

Da utilidade dos animais

Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram
animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que
envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e além disso são muito
úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não
[5] é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.
– Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?
– Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de
carga. Do pelo se fazem perucas bacanas. E a carne, dizem que é gostosa.
– Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?
[10] – Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo.
Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.
– Ele faz pincel, professora?
– Quem, o texugo? Não, só fornece o pelo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho
vai usar quando crescer.
[15] Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de
pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do
canguru:
– Bolsas, malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando da carne.
Canguru é utilíssimo.
[20] – Vivo, fessora?
– A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece,
ou por outra, com o pelo dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores, etc.
– Depois a gente come a vicunha, né, fessora?
– Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a
[25] crescer…
– A gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.
– Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve
para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?
– A carne também é listrada? – pergunta que desencadeia riso geral.
[30] – Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca
vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser
comestível por causa disto. Ah, o pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde
costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados.
Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento – não sabem o que é? O cocô do pinguim é um
[35] adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito da gordura do pinguim…
– A senhora disse que a gente deve respeitar.
– Claro. Mas o óleo é bom.
– Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.
– Pois lucra. O pelo dá escovas de ótima qualidade.
[40] – E o castor?
– Pois quando voltar a moda do chapéu para os homens, o castor vai prestar muito serviço.
Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar de um bom exemplo.
– Eu, hem?
– Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living da
sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pelos da
[45] cauda para Tereza fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade
que vocês não calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para
fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa... O biguá é engraçado.
– Engraçado, como?
– Apanha peixe pra gente.
[50] – Apanha e entrega, professora?
– Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe mas não
pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.
– Bobo que ele é.
– Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras.
[55] Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu,
Ricardo?
– Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o
pelo, o couro e os ossos.

ANDRADE, Carlos Drummond de. De notícias e não-notícias faz-se a crônica. In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 1816-7.

Na frase “Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia.” (ℓ.47), a separação silábica representa a intenção da personagem de
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A separação 'de-lí-cia' enfatiza o gosto por comer o animal.

A professora saboreia a palavra silabando-a, o que destaca o prazer de comer ovos e sopa de tartaruga. Isso reforça a ideia, central na crônica, de tratar o animal como comida, em contraste com o discurso de proteção.

Análise das alternativas

A) Não há relação com o recreio. B) Não se trata de propaganda de cardápio. C) O texto não fala de comidas raras. D) Não há ironia dirigida à inexperiência infantil.

Referência: Efeitos de sentido de recursos gráficos; Drummond, 'Da utilidade dos animais'.

Resolução comentada do VaiConcursos.

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Gabarito: E

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito da Prova de Português — página 2