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TEXTO 1
XXI
1 E foi então que apareceu a raposa:
2 — Bom dia – disse a raposa.
3 — Bom dia – respondeu educadamente o pequeno príncipe que,
4 olhando a sua volta, nada viu.
5 — Estou aqui – disse a voz – debaixo da macieira...
6 — Quem és tu? – perguntou o principezinho. – Tu és bem bonita...
7 — Sou uma raposa – disse a raposa.
8 — Vem brincar comigo – propôs o pequeno príncipe. – Estou tão triste...
9 — Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram
10 ainda.
11 — Ah, desculpa – disse o pequeno príncipe.
12 Mas, após refletir, acrescentou:
13 — O que quer dizer “cativar”?
14 — Tu não és daqui – disse a raposa. – Que procuras?
15 — Procuro os homens – disse o pequeno príncipe. – Que quer dizer
16 “cativar”?
17 — Os homens – disse a raposa – têm fuzis e caçam. É assustador!
18 Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu
19 procuras galinhas?
20 — Não – disse o príncipe. – Eu procuro amigos. Que quer dizer
21 “cativar”?
22 — Significa “criar laços”...
23 — Criar laços?
24 — Exatamente – disse a raposa – Tu não és ainda para mim senão um
25 garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho
26 necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a
27 teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me
28 cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no
29 mundo. E eu serei para ti única no mundo...
30 — Começo a compreender – disse o pequeno príncipe. – Existe uma
31 flor... creio que ela me cativou...
32 — É possível – disse a raposa. – Vê-se tanta coisa na Terra...
33 — Oh! Não foi na Terra – disse o principezinho.
34 A raposa pareceu intrigada:
35 — Num outro planeta?
36 — Sim.
37 — Há caçadores nesse planeta?
38 — Não.
39 — Que bom! E galinhas?
40 — Também não.
41 — Nada é perfeito – suspirou a raposa.
42 Mas a raposa retomou o seu raciocínio.
43 — Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas, e os homens me
44 caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem
45 também. E isso me incomoda um pouco. Mas, se tu me cativas, minha vida
46 será como cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente
47 dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me
48 chamarão para fora da toca, como se fossem música. E depois, olha! Vês, lá
49 longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada.
50 Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens
51 cabelos dourados. Então, será maravilhoso quando me tiveres cativado. O
52 trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho
53 do vento no trigo...
54 A raposa calou-se e observou, por muito tempo, o príncipe:
55 — Por favor... cativa-me! – disse ela.
56 — Eu até gostaria – disse o principezinho –, mas não tenho muito
57 tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
58 — A gente só conhece bem as coisas que cativou – disse a raposa. – Os
59 homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já
60 pronto nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm
61 mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
62 — Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.
63 — É preciso ser paciente – respondeu a raposa. – Tu te sentarás
64 primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do
65 olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas,
66 cada dia, te sentarás mais perto...
67 No dia seguinte, o principezinho voltou.
68 — Teria sido melhor se voltasses à mesma hora – disse a raposa.– Se
69 tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser
70 feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da
71 felicidade!
72 [...]
73 Assim, o Pequeno Príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a
74 hora da partida, a raposa disse:
75 — Ah! Eu vou chorar.
76 — A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não queria te fazer mal;
77 mas tu quiseste que eu te cativasse...
78 — Quis – disse a raposa.
79 — Mas tu vais chorar! – disse ele.
80 — Vou – disse a raposa.
81 — Então, não terás ganhado nada!
82 — Terei, sim, – disse a raposa –, por causa da cor do trigo.
83 Depois ela acrescentou:
84 — Vai rever as rosas. Assim compreenderás que a tua é a única no
85 mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.
86 [...]
87 E voltou, então, à raposa:
88 — Adeus... – disse ele.
89 — Adeus – disse a raposa . – Eis o meu segredo. É muito simples: só se
90 vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
91 — O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para não
92 se esquecer.
SAINT-EXUPÉRY. Antoine de. O Pequeno Príncipe. Com aquarelas do autor; tradução de Dom Marcos Barbosa. 49ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 2015. Texto Adaptado.
ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY (1900-1944) foi um escritor, ilustrador e piloto. Em 1921, ingressou no Serviço Militar, no Regimento de Aviação de Estrasburgo. Tornou-se piloto civil e subtenente da reserva. É autor de “O Pequeno Príncipe”, publicado nos EUA em 1943. Dedicado inicialmente às crianças, passou a ser lido por adultos no mundo inteiro, possuindo cerca de 250 versões. No Brasil, foi publicado pela primeira vez em 1954.
TEXTO 2
O sucesso da Mala
Cybele Meyer
1 Respiro ofegante. Trago nas mãos uma pequena mala e uma agenda
2 tinindo de nova. É meu primeiro dia de aula. Venho substituir uma professora
3 que teve que se ausentar “por motivo de força maior”. Entro timidamente na
4 sala dos professores e sou encarada por todos. Uma das colegas, tentando me
5 deixar mais à vontade, pergunta:
6 — É você que veio substituir a Edith?
7 — Sim – respondo num fio de voz.
8 — Fala forte, querida, caso contrário vai ser tragada pelos alunos – e
9 morre de rir.
10 — Ela nem imagina o que a espera, não é mesmo? – e a equipe toda se
11 diverte com a minha cara.
12 Convidada a sentar-me, aceito para não parecer antipática. Eles
13 continuam a conversar como se eu não estivesse ali. Até que, finalmente, toca
14 o sinal. É hora de começar a aula. Pego meu material e percebo que me olham
15 curiosos para saber o que tenho dentro da mala. Antes que me perguntem,
16 acelero o passo e sigo para a sala de aula. Entro e vejo um montão de olhinhos
17 curiosos a me analisar que, em seguida, se voltam para a maleta. Eu a coloco
18 em cima da mesa e a abro sem deixar que vejam o que há lá dentro.
19 — O que tem aí, professora?
20 — Em breve vocês saberão.
21 No fim do dia, fecho a mala, junto com minhas coisas e saio. No dia
22 seguinte, comporto-me da mesma maneira, e no outro e no outro... As aulas
23 correm bem e sinto que conquistei a classe, que participa com muito interesse.
24 Os professores já não me encaram. A mala, porém, continua sendo alvo de
25 olhares curiosos.
26 Chego à escola no meu último dia de aula. A titular da turma voltará na
27 semana seguinte. Na sala dos professores, ouço a pergunta guardada há
28 tantos dias:
29 — Afinal, o que você guarda de tão mágico dentro dessa mala que
30 conseguiu modificar a sala em tão pouco tempo?
31 — Podem olhar – respondo, abrindo o fecho.
32 — Mas não tem nada aí! – comentam.
33 — O essencial é invisível aos olhos. Aqui guardo o meu melhor.
34 Todos ficaram me olhando. Parecem estar pensando no que eu disse.
35 Pego meu material, despeço-me e saio.
Meyer, Cybele. O sucesso da Mala. In: NOVA ESCOLA. Edição 226,01 de outubro de 2009. Texto adaptado.
Ao se relacionar o texto 1 com o texto 2, pode-se inferir que:
Resolução comentada
Relação entre 'O Pequeno Príncipe' e 'O sucesso da mala'.
O texto 1 trata de cativar e criar laços, e o texto 2 retoma a frase 'o essencial é invisível aos olhos', mostrando que a professora conquistou a classe pela relação. Ambos evidenciam que a conquista, a confiança e o amor são essenciais a uma boa relação.
Análise das alternativas
B) os textos não tratam da força das palavras (a raposa até diz que a linguagem causa mal-entendidos). C) a 'troca de olhar' entre docentes e discentes é restrita demais e só aparece no texto 2. D) não há incerteza do amor entre adolescentes e adultos. E) não tratam de meio ambiente ou consumo consciente.
Referência: Intertextualidade.
Resolução comentada do VaiConcursos.