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Texto-base:
TEXTO 01
Cybergugu
Uma de minhas filhas, matriculada numa escola moderna e “alternativa”, no Rio, em 1977, chegou aos seis anos sem ter aprendido a ler, e não por qualquer deficiência pessoal. Em compensação, conseguia subir em árvores como um mico e, idem, não por uma particular aptidão atlética. Era o estilo da escola: pouco bê-a-bá e muita liberdade para brincar. Na verdade, o dia de aula era um grande recreio.
Para mim, havia algo errado naquilo. Escravo das palavras desde tenra idade, tendo aprendido a ler e a escrever sozinho e, aos cinco anos, de pernas cruzadas e calças curtas, já lendo o Correio da Manhã, achava inconcebível que uma filha minha, em idade tão avançada, ainda não conseguisse ler nem Luluzinha. Mas esta era a proposta da escola: valorizar, pelo máximo tempo, a vida natural da criança, antes que ela se deixasse fisgar para sempre pelo mundo verbal. Compreendi.
Hoje é o contrário. Em escolas de São Paulo, bebês de dois anos, recém-saídos do gugu-dadá e mal entrados no minimaternal, sentam-se ao computador e produzem desenhos de ursinhos, bolinhas e florzinhas digitais. Imagino que, aos três anos, estarão compondo óperas-rock por um programa criado por eles próprios e, aos quatro, irão propor ao mundo um sistema de busca que engolirá o Google: o Gugugle.
Alguns educadores mais severos do Rio e de São Paulo alertam para os riscos dessa precocidade. As crianças precisam brincar com coisas simples, dizem eles, para desenvolver a observação, o aprendizado, a imaginação e até a coordenação motora. A telinha do smartphone faz mal à vista, principalmente para quem ainda não tem os órgãos de visão formados. Sem contar que horas diante do aparelho criarão uma geração de inermes e balofos.
Que nunca aprenderão a subir em árvores.
Fonte: CASTRO, Ruy. "Cybergugu". A melancia quadrada. 1.ed. São Paulo: Editora Moderna, 2015.(adaptado)
Glossário:
Inermes – que não tem meios de defesa.
Precocidade – característica de pessoa que se desenvolve bem mais cedo do que outras.
Tenra – que tem pouco tempo.
Na frase “Alguns educadores mais severos do Rio e de São Paulo alertam para os riscos dessa precocidade”, o termo em negrito tem função de:

TEXTO 01
Cybergugu
Uma de minhas filhas, matriculada numa escola moderna e “alternativa”, no Rio, em 1977, chegou aos seis anos sem ter aprendido a ler, e não por qualquer deficiência pessoal. Em compensação, conseguia subir em árvores como um mico e, idem, não por uma particular aptidão atlética. Era o estilo da escola: pouco bê-a-bá e muita liberdade para brincar. Na verdade, o dia de aula era um grande recreio.
Para mim, havia algo errado naquilo. Escravo das palavras desde tenra idade, tendo aprendido a ler e a escrever sozinho e, aos cinco anos, de pernas cruzadas e calças curtas, já lendo o Correio da Manhã, achava inconcebível que uma filha minha, em idade tão avançada, ainda não conseguisse ler nem Luluzinha. Mas esta era a proposta da escola: valorizar, pelo máximo tempo, a vida natural da criança, antes que ela se deixasse fisgar para sempre pelo mundo verbal. Compreendi.
Hoje é o contrário. Em escolas de São Paulo, bebês de dois anos, recém-saídos do gugu-dadá e mal entrados no minimaternal, sentam-se ao computador e produzem desenhos de ursinhos, bolinhas e florzinhas digitais. Imagino que, aos três anos, estarão compondo óperas-rock por um programa criado por eles próprios e, aos quatro, irão propor ao mundo um sistema de busca que engolirá o Google: o Gugugle.
Alguns educadores mais severos do Rio e de São Paulo alertam para os riscos dessa precocidade. As crianças precisam brincar com coisas simples, dizem eles, para desenvolver a observação, o aprendizado, a imaginação e até a coordenação motora. A telinha do smartphone faz mal à vista, principalmente para quem ainda não tem os órgãos de visão formados. Sem contar que horas diante do aparelho criarão uma geração de inermes e balofos.
Que nunca aprenderão a subir em árvores.
Fonte: CASTRO, Ruy. "Cybergugu". A melancia quadrada. 1.ed. São Paulo: Editora Moderna, 2015.(adaptado)
Glossário:
Inermes – que não tem meios de defesa.
Precocidade – característica de pessoa que se desenvolve bem mais cedo do que outras.
Tenra – que tem pouco tempo.
Na frase “Alguns educadores mais severos do Rio e de São Paulo alertam para os riscos dessa precocidade”, o termo em negrito tem função de: