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Texto-base:
TEXTO IV
Um peixe
1 Virou a capanga de cabeça para baixo e os peixes espalharam-se pela pia. Ele ficou
2 olhando e foi então que notou que a traíra ainda estava viva. Era o maior peixe de todos ali, mas
3 não chegava a ser grande: pouco mais de um palmo. Ela estava mexendo, suas guelras mexiam-
4 se devagar, quando todos os outros peixes já estavam mortos. Como que ela podia durar tanto
5 tempo assim fora d'água?
6 Teve então uma ideia: abrir a torneira, para ver o que acontecia. Tirou para fora os outros
7 peixes: lambaris, chorões, piaus; dentro do tanque deixou só a traíra. E então abriu a torneira: a
8 água espalhou-se e, quando cobriu a traíra, ela deu uma rabanada e disparou, ele levou um
9 susto – ela estava muito mais viva do que ele pensara, muito mais viva. Ele riu, ficou alegre e
10 divertido, olhando a traíra, que agora tinha parado num canto, o rabo oscilando de leve, a água
11 continuando a jorrar da torneira. Quando o tanque se encheu, ele fechou-a.
12 – E agora? – disse para o peixe. – Quê que eu faço com você?...
13 Enfiou o dedo na água: a traíra deu uma corrida, assustada, e ele tirou o dedo depressa.
14 – Você tá com fome?... E as minhocas que você me roubou no rio? Eu sei que era você;
15 devagarzinho, sem a gente sentir... Agora está aí, né? ... Tá vendo o resultado? ...
16 O peixe, quieto num canto, parecia escutar. Podia dar alguma coisa para ele comer. Talvez
17 pão. Foi olhar na lata: havia acabado. Que mais? Se a mãe estivesse em casa, ela teria dado uma
18 ideia – a mãe era boa para dar ideias. Mas ele estava sozinho. Não conseguia lembrar de outra
19 coisa. O jeito era ir comprar um pão na padaria. Mas sujo assim de barro, a roupa molhada,
20 imunda.
21 – Dane-se – disse, e foi.
22 Era domingo à noite, o quarteirão movimentado, rapazes no footing, bares cheios.
23 Enquanto ele andava, foi pensando no que acontecera. No começo, fora só curiosidade; mas
24 depois foi bacana, ficou alegre quando viu a traíra bem viva de novo, correndo pela água,
25 esperta. Mas o que faria com ela agora? Matá-la, não ia; não, não faria isso. Se ela já estivesse
26 morta, seria diferente; mas ela estava viva, e ele não queria matá-la. Mas o que faria com ela?
27 Poderia criá-la; por que não? Havia o tanquinho do quintal, tanquinho que a mãe uma vez
28 mandara fazer para criar patos. Estava entupido de terra, mas ele poderia desentupi-lo, arranjar
29 tudo; ficaria cem por cento. É, é isso o que faria. Deixaria a traíra numa lata d'água até o dia
30 seguinte e, de manhã, logo que se levantasse, iria mexer com isso.
31 Enquanto era atendido na padaria, ficou olhando para o movimento, os ruídos, o vozerio
32 do bar em frente. E então pensou na traíra, sua trairinha, deslizando silenciosamente no tanque
33 da pia, na casa escura. Era até meio besta como ele estava alegre com aquilo. E logo um peixe
34 feio como a traíra, isso é que era o mais engraçado.
35 Toda manhã – ia pensando, de volta para casa – ele desceria ao quintal, levando
36 pedacinhos de pão para ela. Além disso, arrancaria minhocas, e de vez em quando pegaria
37 alguns insetos. Uma coisa que podia fazer também era pescar depois outra traíra e trazer para
38 fazer companhia a ela; um peixe sozinho num tanque era algo muito solitário.
39 A empregada já havia chegado e estava no portão, olhando o movimento.
40 – Que peixada bonita você pegou...
41 – Você viu?
42 – Uma beleza... Tem até uma trairinha.
43 – Ela foi difícil de pegar, quase que ela escapole; ela não estava bem fisgada.
44 – Traíra é duro de morrer, hein?
45 – Duro de morrer? ...
46 Ele parou.
47 – Uai, essa que você pegou estava vivinha na hora que eu cheguei, e você ainda
48 esqueceu o tanque cheio d'água... Quando eu cheguei, ela estava toda folgada, nadando. Você
49 não está acreditando? Juro. Ela estava toda folgada, nadando.
50 – E aí?
51 – Aí? Uai, aí eu escorri a água para ela morrer; mas você pensa que ela morreu? Morreu
52 nada! Traíra é duro de morrer, nunca vi um peixe assim. Eu a coloquei para fora do tanque a
53 deixei lá, sabe? Pois acredita que ela ainda ficou mexendo? Aí eu peguei o cabo da colher e
54 taquei nele, e foi aí que ele morreu. Mas custou, ô peixinho duro de morrer! Quê que você está
55 me olhando?
56 – Por nada.
57 – Você não está acreditando? Juro; pode ir lá na cozinha ver: ela está lá do jeitinho que eu
58 deixei.
59 Ele foi caminhando para dentro.
60 – Vou ficar aqui mais um pouco – disse a empregada. – depois vou arrumar os peixes, viu?
61 – Sei.
62 Acendeu a luz da sala. Deixou o pão em cima da mesa e sentou-se. Só então notou como
63 estava cansado.
Adaptado. Luiz Vilela. O violino e outros contos. 7. ed. São Paulo: Ática, 2007. p. 36-38.
Glossário
Capanga: bolsa pequena, de tecido, couro ou plástico, usada a tiracolo.
Footing: passeio a pé, com o objetivo de arrumar namorado(a).
Guelra: estrutura do órgão respiratório da maioria dos animais aquáticos.
Rabanada: movimento brusco com o rabo.
Vozerio: som de muitas vozes juntas.
Qual o foco narrativo presente no texto “Um peixe”?
TEXTO IV
Um peixe
1 Virou a capanga de cabeça para baixo e os peixes espalharam-se pela pia. Ele ficou
2 olhando e foi então que notou que a traíra ainda estava viva. Era o maior peixe de todos ali, mas
3 não chegava a ser grande: pouco mais de um palmo. Ela estava mexendo, suas guelras mexiam-
4 se devagar, quando todos os outros peixes já estavam mortos. Como que ela podia durar tanto
5 tempo assim fora d'água?
6 Teve então uma ideia: abrir a torneira, para ver o que acontecia. Tirou para fora os outros
7 peixes: lambaris, chorões, piaus; dentro do tanque deixou só a traíra. E então abriu a torneira: a
8 água espalhou-se e, quando cobriu a traíra, ela deu uma rabanada e disparou, ele levou um
9 susto – ela estava muito mais viva do que ele pensara, muito mais viva. Ele riu, ficou alegre e
10 divertido, olhando a traíra, que agora tinha parado num canto, o rabo oscilando de leve, a água
11 continuando a jorrar da torneira. Quando o tanque se encheu, ele fechou-a.
12 – E agora? – disse para o peixe. – Quê que eu faço com você?...
13 Enfiou o dedo na água: a traíra deu uma corrida, assustada, e ele tirou o dedo depressa.
14 – Você tá com fome?... E as minhocas que você me roubou no rio? Eu sei que era você;
15 devagarzinho, sem a gente sentir... Agora está aí, né? ... Tá vendo o resultado? ...
16 O peixe, quieto num canto, parecia escutar. Podia dar alguma coisa para ele comer. Talvez
17 pão. Foi olhar na lata: havia acabado. Que mais? Se a mãe estivesse em casa, ela teria dado uma
18 ideia – a mãe era boa para dar ideias. Mas ele estava sozinho. Não conseguia lembrar de outra
19 coisa. O jeito era ir comprar um pão na padaria. Mas sujo assim de barro, a roupa molhada,
20 imunda.
21 – Dane-se – disse, e foi.
22 Era domingo à noite, o quarteirão movimentado, rapazes no footing, bares cheios.
23 Enquanto ele andava, foi pensando no que acontecera. No começo, fora só curiosidade; mas
24 depois foi bacana, ficou alegre quando viu a traíra bem viva de novo, correndo pela água,
25 esperta. Mas o que faria com ela agora? Matá-la, não ia; não, não faria isso. Se ela já estivesse
26 morta, seria diferente; mas ela estava viva, e ele não queria matá-la. Mas o que faria com ela?
27 Poderia criá-la; por que não? Havia o tanquinho do quintal, tanquinho que a mãe uma vez
28 mandara fazer para criar patos. Estava entupido de terra, mas ele poderia desentupi-lo, arranjar
29 tudo; ficaria cem por cento. É, é isso o que faria. Deixaria a traíra numa lata d'água até o dia
30 seguinte e, de manhã, logo que se levantasse, iria mexer com isso.
31 Enquanto era atendido na padaria, ficou olhando para o movimento, os ruídos, o vozerio
32 do bar em frente. E então pensou na traíra, sua trairinha, deslizando silenciosamente no tanque
33 da pia, na casa escura. Era até meio besta como ele estava alegre com aquilo. E logo um peixe
34 feio como a traíra, isso é que era o mais engraçado.
35 Toda manhã – ia pensando, de volta para casa – ele desceria ao quintal, levando
36 pedacinhos de pão para ela. Além disso, arrancaria minhocas, e de vez em quando pegaria
37 alguns insetos. Uma coisa que podia fazer também era pescar depois outra traíra e trazer para
38 fazer companhia a ela; um peixe sozinho num tanque era algo muito solitário.
39 A empregada já havia chegado e estava no portão, olhando o movimento.
40 – Que peixada bonita você pegou...
41 – Você viu?
42 – Uma beleza... Tem até uma trairinha.
43 – Ela foi difícil de pegar, quase que ela escapole; ela não estava bem fisgada.
44 – Traíra é duro de morrer, hein?
45 – Duro de morrer? ...
46 Ele parou.
47 – Uai, essa que você pegou estava vivinha na hora que eu cheguei, e você ainda
48 esqueceu o tanque cheio d'água... Quando eu cheguei, ela estava toda folgada, nadando. Você
49 não está acreditando? Juro. Ela estava toda folgada, nadando.
50 – E aí?
51 – Aí? Uai, aí eu escorri a água para ela morrer; mas você pensa que ela morreu? Morreu
52 nada! Traíra é duro de morrer, nunca vi um peixe assim. Eu a coloquei para fora do tanque a
53 deixei lá, sabe? Pois acredita que ela ainda ficou mexendo? Aí eu peguei o cabo da colher e
54 taquei nele, e foi aí que ele morreu. Mas custou, ô peixinho duro de morrer! Quê que você está
55 me olhando?
56 – Por nada.
57 – Você não está acreditando? Juro; pode ir lá na cozinha ver: ela está lá do jeitinho que eu
58 deixei.
59 Ele foi caminhando para dentro.
60 – Vou ficar aqui mais um pouco – disse a empregada. – depois vou arrumar os peixes, viu?
61 – Sei.
62 Acendeu a luz da sala. Deixou o pão em cima da mesa e sentou-se. Só então notou como
63 estava cansado.
Adaptado. Luiz Vilela. O violino e outros contos. 7. ed. São Paulo: Ática, 2007. p. 36-38.
Glossário
Capanga: bolsa pequena, de tecido, couro ou plástico, usada a tiracolo.
Footing: passeio a pé, com o objetivo de arrumar namorado(a).
Guelra: estrutura do órgão respiratório da maioria dos animais aquáticos.
Rabanada: movimento brusco com o rabo.
Vozerio: som de muitas vozes juntas.
Qual o foco narrativo presente no texto “Um peixe”?
Resolução comentada
Foco narrativo do conto "Um peixe".
O texto é narrado em 3ª pessoa ("Virou a capanga", "Ele ficou olhando") por um narrador onisciente, que conhece os pensamentos do garoto e não participa da história.
Análise das alternativas
A, C e D falam de 1ª pessoa, o que não ocorre no texto. B mistura 3ª pessoa com narrador-personagem, o que é contraditório.
Referência: Teoria literária: foco narrativo.
Resolução comentada do VaiConcursos.