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Colégio Militar de Brasília 2024

Questão 27 — Língua Portuguesa: Conjunções — Valor Semântico

Língua Portuguesa Conjunções — Valor Semântico

Colégio Militar de Brasília 2024 Fundamental

Colégio Militar de Brasília · Admissão ao 1º Ano do Ensino Médio

Gabarito disponível

Texto-base:
TEXTO 1

Natal na barca
Lígia Fagundes Telles

1 Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.

5 O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
10 até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. [...]

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.

15 A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.

— Mas de manhã é quente. [...]

20 Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
25 roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...

— Seu filho?

30 — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]

— É o caçula? [...]

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
35 contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]

Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
40 fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

45 — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
50 removia montanhas...[...]

E começou com voz quente de paixão:

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não
55 sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o
60 rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]

— Estamos chegando — anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]

65 Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

70 — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]

— Acordou?!

Ela sorriu:

— Veja...

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
75 [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
80 Verde e quente.

Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024.
(Com adaptações)

A respeito do emprego dos operadores textuais e seus valores semântico-discursivos, é correto afirmar que
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

"Até" expressa limite nos dois trechos.

Em "mergulhar as pontas dos dedos" e em "até que ela desapareceu", "até" marca o limite de uma ação (espacial na primeira, temporal na segunda).

Análise das alternativas

B) "Aí" é um dêitico que aponta para a criança e não liga orações. C) "Agora" é advérbio de tempo e não introduz conclusão de juízo de valor. D) "Como se" expressa comparação hipotética, não causa. E) "Tal" tem tom de ênfase ou ironia nos dois casos, e não só no primeiro. A) está correta.

Referência: Operadores textuais: conjunções, preposições e advérbios e seu valor semântico.

Resolução comentada do VaiConcursos.

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Gabarito: A

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito — CMB 2024/2025, 1º ano do Ensino Médio