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Texto-base:
Texto 1
Uma ideia toda azul

01 Um dia o Rei teve uma ideia. Era a primeira da vida toda, e tão maravilhado ficou com
02 aquela ideia azul, que não quis saber de contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim,
03 correu com ela nos gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos,
04 encontrando-a sempre com igual alegria, linda ideia dele toda azul.
05 Brincaram até o Rei adormecer encostado numa árvore.
06 Foi acordar tateando a coroa e procurando a ideia, para perceber o perigo. Sozinha
07 no seu sono, solta e tão bonita, a ideia poderia ter chamado a atenção de alguém.
08 Bastaria esse alguém pegá-la e levar. É tão fácil roubar uma ideia. Quem jamais saberia
09 que já tinha dono? Com a ideia escondida debaixo do manto, o Rei voltou para o castelo.
10 Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, saiu dos seus aposentos, atravessou
11 salões, desceu escadas, subiu degraus, até chegar ao Corredor das Salas do Tempo.
12 Portas fechadas, e o silêncio. Que sala escolher? Diante de cada porta o Rei parava,
13 pensava, e seguia adiante. Até chegar à Sala do Sono.
14 Abriu. Na sala acolchoada, os pés do Rei afundavam até o tornozelo, o olhar se
15 embaraçava em gazes, cortinas e véus pendurados como teias. Sala de quase escuro, sempre
16 igual. O Rei deitou a ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou
17 a porta.
18 A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela. O tempo
19 correu seus anos. Ideias o Rei não teve mais, nem sentiu falta, tão ocupado estava em
20 governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais que mentiam a
21 verdade. Apenas, sentia-se mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade
22 de brincar nos jardins.
23 Só os ministros viam a velhice do Rei. Quando a cabeça ficou toda branca, disseram-
24 lhe que já podia descansar, e o libertaram do manto. Posta a coroa sobre a almofada, o Rei
25 logo levou a mão à corrente. Ninguém mais se ocupa de mim — dizia atravessando salões
26 e descendo escadas a caminho das Salas do Tempo — ninguém mais me olha. Agora posso
27 buscar minha linda ideia e guardá-la só para mim.
28 Abriu a porta, levantou o cortinado. Na cama de marfim, a ideia dormia azul como
29 naquele dia. Como naquele dia, jovem, tão jovem, uma ideia menina. E linda. Mas o Rei não
30 era mais o Rei daquele dia. Entre ele e a ideia estava todo o tempo passado lá fora, o tempo
31 todo parado na Sala do Sono. Seus olhos não viam na ideia a mesma graça. Brincar não
32 queria, nem rir. Que fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.
33 Sentado na beira da cama o Rei chorou suas duas últimas lágrimas, as que tinha
34 guardado para a maior tristeza.
35 Depois baixou o cortinado, e deixando a ideia adormecida, fechou para sempre a
36 porta.
COLASANTI, Marina. Uma ideia toda azul. São Paulo: Global, 1979.
Os textos poéticos (como as canções e os poemas), ao contrário dos textos narrativos, que têm um narrador, apresentam uma voz, que “fala” para os leitores o conteúdo do texto. Essa voz se chama eu lírico e não coincide, necessariamente, com a voz do/a poeta e/ou do/a compositor/a. Essa informação é importante para a leitura e para a compreensão dos textos 2 e 3.
Texto 2
Castelos de Areia
01 Construo com areia e vento,
02 Um pouco de sal do tempo,
03 Um castelo encantado
04 Onde sou rei.
05 Na minha cidade há casas
06 Para todos, e todas as tardes
07 As pessoas dançam na praça
08 A ciranda da paz.
09 O nome de cada um
10 É a chave da felicidade,
11 E ninguém tem pressa de partir.
12 Quando a noite chega,
13 Enquanto durmo,
14 O mar desmancha meu castelo.
MURRAY, Roseana. Pera, uva ou maçã? São Paulo: Scipione, 2015.
Relacionando os textos “Uma ideia toda azul” e “Castelos de Areia”, pode-se inferir que
Texto 1
Uma ideia toda azul
01 Um dia o Rei teve uma ideia. Era a primeira da vida toda, e tão maravilhado ficou com
02 aquela ideia azul, que não quis saber de contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim,
03 correu com ela nos gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos,
04 encontrando-a sempre com igual alegria, linda ideia dele toda azul.
05 Brincaram até o Rei adormecer encostado numa árvore.
06 Foi acordar tateando a coroa e procurando a ideia, para perceber o perigo. Sozinha
07 no seu sono, solta e tão bonita, a ideia poderia ter chamado a atenção de alguém.
08 Bastaria esse alguém pegá-la e levar. É tão fácil roubar uma ideia. Quem jamais saberia
09 que já tinha dono? Com a ideia escondida debaixo do manto, o Rei voltou para o castelo.
10 Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, saiu dos seus aposentos, atravessou
11 salões, desceu escadas, subiu degraus, até chegar ao Corredor das Salas do Tempo.
12 Portas fechadas, e o silêncio. Que sala escolher? Diante de cada porta o Rei parava,
13 pensava, e seguia adiante. Até chegar à Sala do Sono.
14 Abriu. Na sala acolchoada, os pés do Rei afundavam até o tornozelo, o olhar se
15 embaraçava em gazes, cortinas e véus pendurados como teias. Sala de quase escuro, sempre
16 igual. O Rei deitou a ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou
17 a porta.
18 A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela. O tempo
19 correu seus anos. Ideias o Rei não teve mais, nem sentiu falta, tão ocupado estava em
20 governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais que mentiam a
21 verdade. Apenas, sentia-se mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade
22 de brincar nos jardins.
23 Só os ministros viam a velhice do Rei. Quando a cabeça ficou toda branca, disseram-
24 lhe que já podia descansar, e o libertaram do manto. Posta a coroa sobre a almofada, o Rei
25 logo levou a mão à corrente. Ninguém mais se ocupa de mim — dizia atravessando salões
26 e descendo escadas a caminho das Salas do Tempo — ninguém mais me olha. Agora posso
27 buscar minha linda ideia e guardá-la só para mim.
28 Abriu a porta, levantou o cortinado. Na cama de marfim, a ideia dormia azul como
29 naquele dia. Como naquele dia, jovem, tão jovem, uma ideia menina. E linda. Mas o Rei não
30 era mais o Rei daquele dia. Entre ele e a ideia estava todo o tempo passado lá fora, o tempo
31 todo parado na Sala do Sono. Seus olhos não viam na ideia a mesma graça. Brincar não
32 queria, nem rir. Que fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.
33 Sentado na beira da cama o Rei chorou suas duas últimas lágrimas, as que tinha
34 guardado para a maior tristeza.
35 Depois baixou o cortinado, e deixando a ideia adormecida, fechou para sempre a
36 porta.
COLASANTI, Marina. Uma ideia toda azul. São Paulo: Global, 1979.
Os textos poéticos (como as canções e os poemas), ao contrário dos textos narrativos, que têm um narrador, apresentam uma voz, que “fala” para os leitores o conteúdo do texto. Essa voz se chama eu lírico e não coincide, necessariamente, com a voz do/a poeta e/ou do/a compositor/a. Essa informação é importante para a leitura e para a compreensão dos textos 2 e 3.
Texto 2
Castelos de Areia
01 Construo com areia e vento,
02 Um pouco de sal do tempo,
03 Um castelo encantado
04 Onde sou rei.
05 Na minha cidade há casas
06 Para todos, e todas as tardes
07 As pessoas dançam na praça
08 A ciranda da paz.
09 O nome de cada um
10 É a chave da felicidade,
11 E ninguém tem pressa de partir.
12 Quando a noite chega,
13 Enquanto durmo,
14 O mar desmancha meu castelo.
MURRAY, Roseana. Pera, uva ou maçã? São Paulo: Scipione, 2015.
Relacionando os textos “Uma ideia toda azul” e “Castelos de Areia”, pode-se inferir que