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Comando da Aeronáutica — Diretoria de Ensino · Comando da Aeronáutica 2022

Questão 48 — Língua Portuguesa: Intertextualidade — Comparação entre Textos

Língua Portuguesa Intertextualidade — Comparação entre Textos

Comando da Aeronáutica — Diretoria de Ensino 2022 Médio

Comando da Aeronáutica · Exame de Admissão aos CFOAV, CFOINT e CFOINF 2023 · Caderno Versão A

Gabarito disponível

Texto-base:
TEXTO VI
O que faz o brasil, Brasil?
A questão da identidade
Devo começar explicando o meu enigmático título.
É que será preciso estabelecer uma distinção radical entre
um “brasil” escrito com letra minúscula, nome de um tipo
de madeira de lei ou de uma feitoria interessada em
5 explorar uma terra como outra qualquer, e o Brasil que
designa um povo, uma nação, um conjunto de valores,
escolhas e ideias de vida. O “brasil” com o b minúsculo é
apenas um objeto sem vida, autoconsciência ou pulsação
interior, pedaço de coisa que morre e não tem a menor
10 condição de se reproduzir como sistema; /.../ Mas o Brasil
com B maiúsculo é algo muito mais complexo. É país,
cultura, local geográfico, fronteira e território reconhecidos
internacionalmente, e, também casa, pedaço de chão
calçado com o calor de nossos corpos, lar, memória e
15 consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação
especial, única, totalmente sagrada. /.../ Sociedade onde
pessoas seguem certos valores e julgam as ações
humanas dentro de um padrão somente seu. Não se trata
mais de algo inerte, mas de uma entidade viva, cheia de
20 autorreflexão e consciência: algo que se soma e se alarga
para o futuro e para o passado, num movimento próprio
que se chama História. Aqui, o Brasil é um ser parte
conhecido e parte misterioso, como um grande e poderoso
espírito. Como um Deus que está em todos os lugares e
25 em nenhum, mas que também precisa dos homens para
que possa se saber superior e onipotente. Onde quer que
haja um brasileiro adulto, existe com ele o Brasil e, no
entanto – tal como acontece com as divindades –, será
preciso produzir e provocar a sua manifestação para que
30 se possa sentir sua concretude e seu poder. Caso
contrário, sua presença é tão inefável como a do ar que
se respira, e dela não se teria consciência a não ser pela
comparação, pelo contraste e pela percepção de algumas
de suas manifestações mais contundentes.
(DaMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986, p. 11-13)

TEXTO I
Carta
Nela [terra], até agora, não pudemos saber que haja
ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem
lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim
frios e temperados, como os de Entre Douro e Minho,
5 porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
As águas são muitas; infindas. E em tal maneira é
graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo,
por bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me
10 parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a
principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que aí não houvesse mais que ter aqui esta
pousada para esta navegação de Calecute, bastaria.
Quando mais disposição para se nela cumprir e fazer o que
15 Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da
nossa santa fé.
(CAMINHA, Pero Vaz de. “Carta”. In: PEREIRA, Paulo Roberto Dias. (Org.) Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 1999, p. 58.)

TEXTO II
Canção do exílio
(Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
4 Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
8 Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
12 Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
18 Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
24 Onde canta o Sabiá.

Coimbra, julho de 1843
(BARBOSA, Frederico (Org.). Clássicos da poesia brasileira – antologia da poesia brasileira anterior ao Modernismo. São Paulo: O Estado de São Paulo/Klick Editora, 1997, p. 66-67.)

TEXTO III
A Pátria
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
5 É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
10 Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha
o pão que mata a fome, o teto que agasalha...

Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!

15 Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!
(BILAC, Olavo. Poesias infantis. Rio de Janeiro, Minas, São Paulo: Francisco Alves & Cia,1904, p. 114-115.)

TEXTO IV
Canção do expedicionário
(Guilherme de Almeida)

Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do Engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
5 Da choupana onde um é pouco
Dois é bom, três é demais,
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
10 Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
15 Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse “V” que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
20 Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

25 Você sabe de onde eu venho?
É de uma Pátria que eu tenho
No bojo do meu violão;
Que de viver em meu peito
Foi até tomando jeito
30 De um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreiro,
Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de jacarandá,
Minha casa pequenina
35 Lá no alto da colina
Onde canta o sabiá.
/.../
(POLÍCIA MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. Departamento de Educação e Cultura. Disponível em https://dec.pm.df.gov.br/images/pdf/Hinos_e_Cancoes_Militares_-_reduzido.pdf. Acesso em 24/03/2022.)

O “Brasil com B maiúsculo”, no Texto VI, é definido como “pedaço de chão calçado com o calor de nossos corpos, lar, memória e consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única, totalmente sagrada.” (ℓ. 13 a 16). Essa concepção de Brasil está presente na mensagem dos seguintes textos presentes nesta prova, EXCETO na(o)
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A Carta de Caminha vê a terra como recurso e meio de catequese, sem vínculo afetivo.

A concepção de Brasil como lar, memória e ligação sagrada aparece na saudade da Canção do exílio, no afeto à pátria da Canção do expedicionário e na exaltação do solo em 'A Pátria'. Na Carta, a terra é avaliada por seu potencial (ouro, águas, bons ares) e pela oportunidade de catequização, sem vínculo afetivo.

Análise das alternativas

A, B e C: expressam pertencimento e amor à terra natal. D) Correta como exceção.

Referência: Intertextualidade; Roberto DaMatta; Literatura brasileira.

Resolução comentada do VaiConcursos.

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Gabarito: D

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito oficial — Versão A