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TEXTO 1
O peso e a leveza de viver
A leveza intensifica a sensação de liberdade, mas não cria vínculos; o sonho é o terreno da leveza, mas sua concretização exige o peso. É possível escolher entre o peso e a leveza?
Por Margot Cardoso, em 22/09/2021
Por conta de um seminário na margem sul do Tejo, cruzei a Praça do Comércio durante toda a semana. Saía do barco, atravessava a praça e avançava sob o arco da rua Augusta, oficialmente a porta de entrada da cidade. O mesmo trajeto que, durante séculos, fizeram aqueles que chegavam a Lisboa por mar. Apesar da repetição, o trajeto nunca foi monótono. Houve dias em que senti uma leveza extrema: a belíssima arquitetura tingida de amarelo com suas torres e esculturas que abraça o campo de visão; o histórico café Martinho da Arcada, frequentado por Fernando Pessoa (...); o clima de festa no rosto dos turistas...
Em outros dias, fui soterrada pelo peso da história da praça. Foi nela que se registrou, em 1640, o fim do domínio espanhol, assinalado com a morte do secretário de estado (...). Esse mesmo cenário foi transformado em escombros pelo terremoto de 1755. O Palácio Real e sua biblioteca de 70 mil volumes, documentos históricos e centenas de obras de arte – entre as quais pinturas de Ticiano e Rubens – foram completamente destruídos. Nessa mesma praça, em 1908, foram assassinados o rei D. Carlos e o seu filho.
A mesma praça, dois estados: peso e leveza. As duas faces da vida na visão do filósofo grego Parmênides, que via o mundo como pares opostos: o ser e o não ser, o quente e o frio, o peso e a leveza. Apesar da pertinência, Parmênides tinha preferência pela leveza, porque ela tinha mais chances de trazer a liberdade.
Desde a descoberta dessa condição, a disputa entre o peso e a leveza tem sido acirrada. (...) Porém, hoje, muito mais do que em qualquer outra época, a leveza tem alcançado a importância máxima. Nunca a leveza criou tantas expectativas, desejos e obsessões. Nunca fez comprar e vender tanto. Ela tornou-se um valor, um ideal a ser perseguido, quase uma virtude.
A demanda é ser leve, viver de forma solta, sem o peso de amarras. A recomendação é simplificar a vida, viajar com pouca bagagem e eliminar tudo que nos aproxime da terra firme. Todos clamam pela leveza e suas variações. No campo pessoal, há o elogio à magreza, às dietas detox, à desaceleração, à busca do zen, do mindfullness, do minimalismo. (...) Por todos os lados, a ordem é desmaterializar. Mais do que dinheiro e felicidade, a escolha do corpo e do espírito é pela mala menos pesada. E exige-se do outro que ele “pegue leve”. Nietzche identificou a preferência: “o que é bom é leve, tudo o que é divino corre sobre pés delicados”.
E qual é o problema? A ironia. Apesar de todo esse arsenal de leveza, a cada dia a vida parece mais pesada e difícil de suportar. Dizendo melhor: a busca da leveza é pesada e estamos caminhando em círculos: buscamos a leveza, encontramos o peso e, por isso, aumentamos ainda mais a nossa sede pela leveza. (...) E por que é assim? Porque não existe nada leve ou pesado. Não há como experimentar a leveza doce do amor por um filho, sem o peso do dever de educá-lo. A existência etérea da borboleta carrega o peso da memória da lagarta. Eles não são contraditórios, são faces da mesma moeda, se alternam e se encontram. São parte da diversidade necessária para o equilíbrio da vida.
E mesmo que fosse possível escolher. Qual dos dois é o melhor? A leveza intensifica a sensação de liberdade, mas também traz a insignificância e a dispersão. Ela não carrega malas, mas também não cria vínculos. O peso vem quando nos relacionamos, mas só nos relacionamos quando a leveza permite que sejamos tocados. O peso nos puxa para a terra, diminui a nossa agilidade, mas é esse mesmo peso que pavimenta o caminho da leveza de se rever e de se perder naqueles que amamos. A leveza traz a capacidade para o sonho, mas é no peso que encontramos o sentido da vida.
Disponível em: https://vidasimples.co/colunista/o-peso-e-a-leveza-de-viver/. Acesso em: 21 mai 2025.
Sobre o Texto 1, é correto inferir que
Resolução comentada
A bivalência peso/leveza permite enxergar a essência da vida.
O texto afirma que o amor pelo filho só é pleno com o peso do dever, e que 'é no peso que encontramos o sentido da vida'. Isso leva à inferência de que a coexistência dos dois valores revela a essência da vida.
Análise das alternativas
A) Errada: o texto menciona a polaridade desde Parmênides. B) Errada: a autora diz que não há um sem o outro, mas não que a dualidade não faça sentido. C) Errada: a ironia é que a vida parece mais pesada apesar da busca de leveza. E) Errada: o minimalismo é citado como parte da busca pela leveza, não como prova de que ela foi atingida.
Referência: Interpretação de texto: inferência.
Resolução comentada do VaiConcursos.