Duas técnicas de estudo têm mais apoio científico que todas as outras: testar a própria memória e espalhar as revisões no tempo. Para quem estuda para concurso, isso significa resolver questões desde o início e revisar cada assunto em intervalos, e não de uma vez só. Reler, grifar e resumir parecem produtivos, mas rendem pouco quando são o método principal.
Este guia mostra o que as pesquisas encontraram, técnica por técnica, e como montar a sua semana de estudo com isso.
A resposta curta: teste e espaçamento
Em 2013, cinco psicólogos liderados por John Dunlosky, da Kent State University, revisaram centenas de estudos sobre dez técnicas que estudantes usam. Eles deram a cada técnica uma nota de utilidade: alta, moderada ou baixa.
O critério não foi só “funciona no laboratório”. A técnica precisava ajudar pessoas de idades e níveis diferentes, em matérias diferentes e em provas reais.
| Utilidade | Técnica | O que é |
|---|---|---|
| Alta | Prática de testes | Tentar lembrar sem consultar: questões, flashcards, perguntas a si mesmo |
| Alta | Prática distribuída | Estudar o mesmo assunto em sessões separadas por dias ou semanas |
| Moderada | Interrogação elaborativa | Perguntar “por que isso é verdade?” e responder |
| Moderada | Autoexplicação | Explicar com suas palavras cada passo do que leu ou resolveu |
| Moderada | Prática intercalada | Misturar tipos de problema ou assuntos na mesma sessão |
| Baixa | Resumo | Reescrever o conteúdo de forma mais curta |
| Baixa | Grifar ou sublinhar | Marcar trechos do texto |
| Baixa | Palavra-chave mnemônica | Associar um termo a uma palavra parecida e a uma imagem |
| Baixa | Imagens mentais | Visualizar o conteúdo de um texto |
| Baixa | Reler | Ler de novo o mesmo material |
Nota baixa não quer dizer “inútil”. Quer dizer que a técnica ajudou pouco ou em poucas situações nos estudos revisados.
Resolva questões antes de se sentir pronto
Tentar lembrar fortalece a memória mais do que ler de novo. Os pesquisadores chamam isso de efeito de teste.
Em 2006, Henry Roediger e Jeffrey Karpicke, da Universidade Washington em St. Louis, compararam dois grupos que estudavam o mesmo texto. Um grupo releu o texto várias vezes; o outro leu uma vez e fez testes de memória. Uma semana depois, quem fez os testes lembrava 61% do conteúdo, contra 40% de quem só releu.
O resultado tem uma pegadinha: cinco minutos depois da leitura, o grupo que releu ia melhor. Por isso reler dá a sensação de domínio, mas essa vantagem some em poucos dias.
Para usar o efeito de teste no concurso:
- Depois de estudar um tópico, feche o material e escreva o que lembra, em tópicos.
- Resolva questões do assunto no mesmo dia, mesmo errando muitas.
- Leia o comentário de cada erro e anote o motivo: faltou conteúdo, leu errado ou confundiu conceitos.
- Refaça as questões que errou depois de alguns dias, sem olhar a resposta antes.
Você pode começar pelas disciplinas que aparecem em quase todo edital. Estas questões estão no banco do VaiConcursos:
Interpretação de Texto – Marinha do Brasil, 2011 Vícios de Linguagem – Marinha do Brasil, 2011 Lei nº 8.112/1990 – Marinha do Brasil, 2015 Licitações: revogação e anulação – Marinha do Brasil, 2015Para escolher por disciplina, use os filtros do banco de questões do VaiConcursos.
Espalhe as revisões no calendário
Estudar um assunto em três sessões curtas, com dias entre elas, rende mais que uma sessão longa. É o efeito de espaçamento.
A pergunta prática é: quanto tempo esperar entre uma revisão e outra? Em 2008, Nicholas Cepeda e colegas testaram mais de 1.350 pessoas. Elas aprenderam fatos novos, revisaram depois de um intervalo de até 3,5 meses e fizeram uma prova até 1 ano depois.
O intervalo ideal dependeu da distância até a prova:
- prova em 1 semana: revisar depois de cerca de 20% a 40% desse prazo;
- prova em 1 ano: revisar depois de cerca de 5% a 10% desse prazo.
Na prática, se a sua prova está a 70 dias, um intervalo de 10% a 20% dá uma revisão a cada 1 a 2 semanas para cada assunto. Os pesquisadores também viram que revisar cedo demais prejudica mais que revisar tarde demais.
Uma forma simples de aplicar:
- Estude o tópico novo e resolva questões no mesmo dia.
- Revise com questões depois de 1 dia.
- Revise de novo depois de cerca de 1 semana.
- Daí em diante, revise a cada 2 a 4 semanas até a prova.
Um caderno de erros ou um aplicativo de flashcards com repetição espaçada ajuda a lembrar o que revisar em cada dia.
Misture disciplinas e assuntos na mesma sessão
Fazer 30 questões seguidas do mesmo assunto parece eficiente porque você acerta cada vez mais. O problema é que você já sabe qual regra usar antes de ler a questão. Na prova, as questões chegam misturadas.
Em 2007, Doug Rohrer e Kelli Taylor ensinaram universitários a calcular o volume de quatro sólidos geométricos. Um grupo treinou um tipo de sólido por vez; o outro, com os tipos misturados. Uma semana depois, o grupo que misturou acertou 63%, contra 20% do grupo que treinou em blocos.
A estratégia vale para o concurso assim:
- depois de estudar dois ou três assuntos de uma disciplina, faça listas que misturem todos eles;
- em Português, alterne concordância, crase e regência na mesma lista;
- uma vez por semana, faça um bloco com várias disciplinas, como num simulado.
A sessão misturada parece mais difícil e você erra mais nela. Julgue o método pelo desempenho dias depois, e não pela sensação durante o treino.
Sistemas Lineares – Marinha do Brasil, 2016Pergunte “por quê?” e explique em voz alta
Duas técnicas receberam nota moderada e combinam bem com as anteriores. A primeira é perguntar por que uma regra existe. Exemplo: “Por que o ato administrativo pode ser revogado, mas não anulado, por conveniência?”
A segunda é explicar com suas palavras cada passo de uma questão resolvida. Funciona sobretudo em Matemática, Raciocínio Lógico e Contabilidade, em que o caminho importa tanto quanto a resposta.
Use as duas na correção das questões: em cada erro, explique em uma ou duas frases por que a alternativa certa está certa.
Reler, grifar e resumir: onde entram
Essas três técnicas ficaram com nota baixa. Elas exigem pouco esforço de memória, por isso o conteúdo parece familiar e você acha que aprendeu.
Isso não significa abandonar o material de leitura. A primeira leitura de um assunto continua necessária. O que muda é o que vem depois dela:
- Grifar: marque pouco, e transforme cada trecho marcado em uma pergunta para responder depois.
- Resumir: faça o resumo de memória, com o livro fechado, e só depois confira o que faltou.
- Reler: troque a releitura completa por questões do assunto e releia só o trecho dos erros.
Estilos de aprendizagem e outros mitos
A ideia de que cada pessoa aprende melhor por um canal — visual, auditivo ou cinestésico — é muito popular. Em 2008, Harold Pashler e outros três pesquisadores revisaram os estudos sobre o tema. Eles não encontraram base científica para adaptar o estudo a um “estilo” medido por teste.
Isso não quer dizer que todo mundo deva estudar igual. Quer dizer que o tipo de conteúdo pesa mais que o “estilo”: mapa se aprende vendo, e pronúncia se aprende ouvindo.
O método Pomodoro, com blocos de 25 minutos e pausas curtas, é uma técnica para organizar o tempo e manter o foco. Ele não estava entre as técnicas de memória avaliadas nas revisões citadas aqui. Use se ajudar você a começar e a manter o ritmo.
Sono e descanso fazem parte do método
Durante o sono, o cérebro consolida o que você aprendeu durante o dia. Estudos com estudantes mostram que dormir pouco atrapalha tanto o aprendizado quanto a lembrança na hora da prova.
Um estudo da pesquisadora Jessica Payne, da Universidade de Notre Dame, encontrou memória melhor quando o sono veio logo depois do estudo. Na prática, revisar à noite e dormir em seguida é uma boa combinação. Varar a madrugada antes da prova vai na direção contrária.
Uma semana de estudo com as técnicas juntas
Este é um exemplo para quem estuda cerca de 3 horas por dia. Ajuste as disciplinas ao seu edital.
| Dia | Conteúdo novo (1h30) | Questões e revisão (1h30) |
|---|---|---|
| Segunda | Português: concordância | Questões de concordância + revisão de crase (estudada na semana anterior) |
| Terça | Direito Administrativo: atos administrativos | Questões de atos + revisão de concordância (1 dia depois) |
| Quarta | Raciocínio Lógico: proposições | Questões de proposições + revisão de atos (1 dia depois) |
| Quinta | Português: regência | Lista misturada de Português (concordância, crase e regência) |
| Sexta | Informática: planilhas | Questões de planilhas + revisão de proposições |
| Sábado | — | Simulado curto com todas as disciplinas da semana, com tempo marcado |
| Domingo | — | Caderno de erros: refazer as questões erradas da semana |
Repare no padrão: todo assunto novo vira questão no mesmo dia, volta no dia seguinte e reaparece misturado no fim da semana.
Por onde começar hoje
O resumo cabe numa frase: tente lembrar em vez de reler, e volte a cada assunto mais de uma vez, com dias entre as revisões. Escolha a disciplina que mais pesa no seu edital e resolva 10 questões dela hoje, antes de abrir a teoria de novo.
Se ainda não escolheu um concurso, veja os concursos abertos e comece pelas questões das disciplinas que eles cobram no banco de questões do VaiConcursos.
Pesquisas citadas neste guia
Os artigos abaixo foram publicados em revistas científicas com revisão por pares. Os textos estão em inglês.
- Dunlosky, J. et al. (2013). Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques. Psychological Science in the Public Interest, 14(1). DOI 10.1177/1529100612453266
- Roediger, H. L.; Karpicke, J. D. (2006). Test-Enhanced Learning. Psychological Science, 17(3). DOI 10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x
- Cepeda, N. J. et al. (2008). Spacing Effects in Learning: A Temporal Ridgeline of Optimal Retention. Psychological Science, 19(11). DOI 10.1111/j.1467-9280.2008.02209.x
- Rohrer, D.; Taylor, K. (2007). The Shuffling of Mathematics Problems Improves Learning. Instructional Science, 35. DOI 10.1007/s11251-007-9015-8
- Pashler, H. et al. (2008). Learning Styles: Concepts and Evidence. Psychological Science in the Public Interest, 9(3). DOI 10.1111/j.1539-6053.2009.01038.x